Blogs e Jornalismo Investigativo: O debate amador-profissional

Na segunda parte de meu capítulo de livro, dou uma olhada nas críticas dirigidas tanto a blogueiros quando a jornalistas profissionais. Qualquer correção, informação extra ou comentários são bem-vindos. [This is a Portuguese translation of Blogs and Investigative Journalism part two. Thanks to Gabriela Zago]

O debate amador-profissional

Blogs têm atraído críticas de uma variedade de fontes por serem suscetíveis de mobilizar multidões (Allan, 2006), por conter opiniões doentias ou viciadas, por ser uma “cadeia de eco”de vozes homogêneas (Henry, 2007), pela falta de rigor editorial, e como representantes do crescimento do “culto do amador”.

Ao mesmo tempo, o jornalismo profissional por si só tem sido atacado pelo crescimento da cultura corporativa (Gant, 2007), com muitos jornalistas vendo “sua autonomia diminuindo ao passo que os padrões da sala de redação de ética, rigor e balanço perdem espaço para metas administrativas de economia financeira e trivialização de notícias” (Beers, 2006: 113), ao passo que redações com poucos recursos têm enfrentado críticas por veicularem vídeos de release sem edição (Henry, 2007), ou usando como base apenas uma fonte (Ponsford, 2007), e o jornalismo investigativo em específico tem sido criticado por permitir às fontes estabelecer as agendas (Feldstein, 2007).

Por trás de muitos desses debates estão tensões ao redor de discursos de amadorismo e profissionalismo. Por sua natureza, o jornalismo profissional é uma entidade comercializada, utilizada para fazer dinheiro. Para fazer isso, ele deve tanto atrair grandes audiências, ou audiências relativamente afluentes, que sejam atraentes para anunciantes, ou estar disposto a cobrir altos custos. Também deve manter os gastos baixos onde é posível, o que significa que a seleção de notícias é geralmente rotinizada, e burocratizada.

Herman (2005) ilustra isso ao identificar cinco condições que a informação deve preencher antes de se tornar notícia: a orientação de tamanho, propriedade e lucro das operações de notícias; a dominância da publicidade; a dependência de ‘fontes oficiais’; tentativas de controle; e pressões ideológicas.

A estrutura de Herman é útil para ilustrar como poucas dessas pressões são aplicáveis aos blogs. Muitos blogs jornalísticos são escritos por uma pessoa, a qual não obtém lucro a partir de seu blog. Publicidade, quando existe, é em geral vendida a partir de um serviço terceirizado como Google, Adsense, e o blogueiro raramente é dependente dos rendimentos gerados a partir desses sistemas.

Entretanto, enquanto ‘fontes oficiais’ não são usadas da mesma forma que os jornalistas confiam em releases e porta-vozes oficiais, há uma dependência bem documentada na mídia tradicional em si por informações de segunda mão, ainda que geralmente complementada com referência a versões alternativas, informações mais detalhada, ou documentos originais.

A natureza amadora dos blogs é geralmente vista como um contrapeso crucial à natureza profissional do jornalismo – o que Axel Bruns chama de ‘gatewatching’ (Bruns, 2005), ou Jane Singer descreve como um “antídoto para o pensamento jornalístico em grupo” (Friend & Singer, 2007: 119). Como Skinner aponta: “Eles são guiados por um propósito ou ordem mais do que pelo lucro e eles são geralmente organizados para facilitar uma absorção mais ampla dentro da produção do que seus primos corporativos e fornecem maneiras de ver e entender que são marginalizadas ou não disponíveis ali” (em Beers, 2006:115).

O blog de Michael Yon, indicado para um Pullitzer, que reporta desde o Iraque, por sua vez, claramente rejeita compromissos comerciais de modo a permanecer independente: “Não como um espertalhão ou como um indivudalista belicoso resistindo contra “o sistema”, mas meramente alguém que pode ir contra o sistema quando é necessário contrariá-lo” (Yon, 2007).

A qualidade subjetiva dos blogs é compensada por sua quantidade: objetividade, alguns comentadores argumentam, não é mais essencial em uma era e plataforma onde os monopólios de publicação não existem, e a visão contrária fica a um clique de distância (Gillmor, 2005), ao passo que a objetividade como uma qualidade do jornalismo profissional foi motivada por pressões comerciais para atrair anunciantes e grandes audiências (Friend & Singer, 2007; Gant, 2007). De fato, a objetividade como um valor no jornalismo tradicional tem perdido seu apelo, inclusive com algumas organizações retirando-a de seus códigos de ética (Friend & Singer, 2007).

A natureza aparentemente ‘inconfirmada’ dos blogs, entretanto, é enganosa. Considerando que o jornalismo profissional emprega editores para checar as matérias antes de publicá-las, os blogs tendem a reverter o processo: publicam, e depois checam. Editar, nesse caso, toma lugar ‘a partir das margens’, à medida que leitores e outros blogueiros checam os fatos apresentados em um processo de ‘jornalismo iterativo’ (Bruns, 2005). Diferente do jornalismo tradicional, o qual produz um produto centrado no tempo que procura ser definitivo, ou pelo menos um ‘primeiro rascunho da história’, os produtos dos blogs e de outras novas formas midiáticas para o jornalismo são eternamente incabados: aberto a comentários, reescritas, atualizações e, no caso dos wikis, a edições e novas redações pelos próprios usuários.

Leia a próxima parte dessa série – sobre fontes – aqui.

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