Do faro ao furo: um modelo para jornalistas encontrarem suas histórias

Do faro ao furo Como jornalistas encontram suas histórias Explorar Retransmitir Reagir Cobrir Buscar Investigar

Como jornalistas encontram suas histórias? Como testamos se uma história é tão boa quanto poderia ser? De que maneira podemos fazer melhor como jornalistas?

A imagem acima (original, em inglês) é minha tentativa de responder a essas perguntas. Ela mapeia as seis atividades que os jornalistas realizam em suas rotinas de trabalho, por ordem de valor: desde a exploração de um campo ou assunto, passando pela retransmissão da informação para uma audiência mais ampla, reação ou cobertura de eventos noticiosos, busca de novas informações e experiências, e investigação.

O modelo foi projetado para ajudar estudantes de jornalismo a mapearem seus caminhos (de fora para dentro), e desafiá-los a construir reportagens mais variadas, mais originais e mais relevantes.

Todas essas atividades têm algum valor. É fácil dizer que todo jornalismo deve ser investigativo, ou que jornalistas devem evitar a mera repetição de um release – mas sabemos que não é possível e, de fato, essas atualizações simples e regulares podem ser importantes para manter uma audiência que mais tarde será apresentada a reportagens mais rigorosas. Abaixo descrevi cada etapa, juntamente com uma explicação sobre como estou utilizando-as.

Explorar

Explorar é a primeira atividade que qualquer jornalista empreende quando muda para uma nova área, publicação ou especialidade: envolve identificar quais são as fontes de informação úteis, tanto organizacionais quanto individuais: de tribunais e polícias a escolas, hospitais, políticos e ativistas.

Encontrar essas fontes de informação e pessoas requer habilidade: aqui está um guia que escrevi com 7 maneiras de cobrir uma área de interesse, por exemplo; e aqui está outro sobre como encontrar contas úteis no Twitter. Dou a meus alunos dicas semelhantes sobre busca de fontes utilizando Snapchat, LinkedIn, Facebook, entre outros.

Gerenciar a informação resultante dessa busca é também uma habilidade: listas de Twitter e Facebook, leitores de RSS e alertas de e-mail são apenas alguns exemplos (mais sobre isso neste post).

Explorar é também a base do jornalismo de curadoria: rondas, materiais explicativos, informações prévias e guias são base para a seleção do material disponível, e filtragem do que é mais relevante para sua audiência. O exemplo abaixo, do Buzzfeed, mostra como é possível conseguir engajamento mesmo em um assunto mais difícil.

Notícias baseadas em curadoria podem ser informativas – mas você precisa também de outros tipos de apuração

Retransmitir

Retransmitir é a atividade jornalística básica de ver algo que é dito , e reportar para sua audiência aqui.

A fonte tradicional para isso é o press-release, mas como as assessorias de imprensa também estão com presença online, essa fonte é cada vez mais a mídia social: a página do Facebook ou conta no Twitter de uma organização faz um anúncio; uma celebridade ou personalidade esportiva publica algo no Instagram ou Snapchat, e o jornalista reporta para sua audiência.

Há uma série de críticas a esse tipo de jornalismo: em 2008, o termo ‘churnalism’ foi cunhado para se referir ao processo de repetição preguiçosa de informações fornecidas para o jornalista, sem qualquer apuração extra.

Dessa forma, há pouco valor no jornalismo que apenas retransmite informações: se os fãs de uma celebridade já a seguem nas mídias sociais, ou se as pessoas de uma comunidade podem encontrar a página de sua escola no Facebook, por que eles iriam até você para buscar essa informação?

Por essas razões, a retransmissão tende a se adequar melhor ao formato NIB (News in Brief) [pílulas de informações factuais], tais como anúncios ou declarações. Algo mais longo deve ser cuidadosamente avaliado: isso é novo para sua audiência? Você precisa procurar uma voz alternativa para desafiar a afirmação feita, ou oferecer uma perspectiva diferente? Em outras palavras, você pode acrescentar novas informações ao reagir?

Billionaires Mark Cuban And Carl Icahn Fight On Twitter About Trump

Um exemplo de retransmissão da Forbes: não se trata apenas de revistas de celebridades monitorando as mídias sociais

Reagir

Reagir representa a maior parte da atividade jornalística: não apenas identificar que algo noticiável aconteceu, mas acompanhar o fato a fim de descobrir a informação necessária para fornecer um relato claro. Normalmente, envolve a busca por determinado equilíbrio (todas as vozes relevantes são ouvidas) e base factual. Esses fatos afetam duas coisas: o que realmente aconteceu, quando, onde, como, por que e envolvendo quem; e, em segundo lugar, que base factual existe para o que essas vozes diversas estão dizendo?

Exemplos típicos incluem:

  • Uma instituição pública faz um anúncio: o jornalista reage buscando mais detalhes, se necessário, e respostas de organizações que possam ser afetadas, e/ ou outros grupos políticos ou campanhas
  • Um fato noticiável ocorre, como um crime relevante, acidente ou desastre natural: o jornalista responde, tentando encontrar as pessoas diretamente afetadas, ou seus parentes, e/ ou informações de serviços a respeito dos fatos, e o que eles estão fazendo em resposta
  • Uma acusação ou crítica é feita por uma pessoa, órgão ou relatório, ou informação negativa é vazada para o domínio público, ou um protesto é realizado / petição assinada: o jornalista responde, buscando uma resposta do acusado / criticado / implicado
  • Outro veículo jornalístico relata algo: o jornalista reage “movendo a história” de uma maneira nova. Se é um jornalista local, pode buscar por um ângulo local; para os repórteres especializados (por exemplo, em revistas) pode ser um ângulo de um especialista; para outros, mais informações novas ou reações de figuras noticiáveis (não ‘voz do povo’ ou ‘povo fala’)
Invest NI chief reacts to Caterpillar announcement

Um exemplo de história baseada em reação da ITV

Cobrir (fisicamente)

Jurgen Klopp's press conference LIVE updates from Melwood

Cobertura de acontecimentos é cada vez mais ao vivo

Sair da redação e cobrir acontecimentos é uma parte fundamental do jornalismo. Exemplos incluem:

  • Comitês de entidades públicas e reuniões públicas, por exemplo: comitês de conselhos de escrutínio, reuniões de conselho de hospitais, reuniões de diretoria de escolas, reuniões de polícia e de delegados criminais, etc.
  • Eventos de relações públicas, tais como conferências de imprensa, lançamentos, etc.
  • Conferências, encontros, reuniões, entre outros
  • Protestos, marchas, reuniões públicas e atividades de campanhas similares
  • Eventos esportivos e culturais como competições, jogos, paradas e exibições

Claro que cobrir depende da exploração do material de antemão, e muitas vezes a busca por outros detalhes do acontecimento para complementá-lo ainda mais…

Buscar

O jornalismo em profundidade e baseado em recursos conta, por exemplo, com um jornalista buscando uma fonte específica ou experiência.

Para uma boa entrevista, o jornalista pode proativamente identificar e abordar alguém. Essa pessoa deve ter expertise relevante para ser noticiada, uma experiência pessoal convincente, conhecimento único, ou estar em uma posição que afete a vida de outras pessoas.

Em alguns formatos, o jornalista se coloca na história: pode ser um “um dia na vida” de uma função específica, ou um diário de viagem, desafio ou busca. Trata-se de um texto mais descritivo sobre um ambiente interessante.

Investigar

Enquanto retransmitir, reagir e cobrir são, em grande parte, reativos, buscar e investigar são atividades mais proativas. O jornalista tem mais autonomia para afastar-se da rotina de pautas e, em alguns casos, pode identificar histórias que estão escondidas.

Investigar envolve, tipicamente, esforço para responder a uma pergunta, ou testar uma hipótese. A pergunta deve ser aquela que te ocorre como jornalista, por exemplo “Quantos portadores da tocha olímpica têm ligações com patrocinadores comerciais”, ou pode ser por meio da contribuição de um leitor ou fonte, como “Quanto custou o novo website do Conselho?”

Responder essas perguntas vai envolver algumas ou todas as atividades listadas acima: explorar o assunto; cobrir fatos relevantes; buscar pessoas interessantes; e muitas vezes retransmitir e reagir a eventos para estabelecer sua reputação ao longo da trajetória no campo jornalístico.

Investigações podem afetar a agenda de notícias em si, influenciando outros jornalistas a reagir à história, cobrir fatos desencadeados por elas (como consultas ou protestos), e buscar e investigar mais a si mesmos.

Como o modelo pode ser utilizado

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Todos os estudantes de jornalismo são avaliados em suas apurações. O que o diagrama acima mostra é como eles podem ter certeza de que a apuração está suficientemente boa (padrão) ou tão boa quanto pode ser (excelência).

Nos cursos que ministro, espero que os alunos façam mais do que apenas explorar e retransmitir. É bom ter alguns elementos do conteúdo baseados nessas atividades, para demonstrar diferentes técnicas de produção (por exemplo um NIB; uma lista). Mas se sua apuração não vai além disso, então você falha nesse critério.

Pode ser difícil às vezes para os alunos entenderem que apenas requentar informação de segunda mão não é suficiente. Porque, afinal de contas, se o seu próprio consumo de mídia está limitado a esse tipo de conteúdo, então você deve pensar que um jornalista faz só isso.

A distinção é entre o conteúdo e o jornalista. O jornalista pode criar algum conteúdo de curadoria ou reescrito, mas, acima de tudo, espera-se que ele realize outras atividades também, ou pelo menos tenha a capacidade de fazê-la no futuro. Se seu portfolio não mostra essa amplitude de apuração, então outros vão conseguir o emprego.

O diagrama também é projetado para ajudar os alunos a identificarem os tipos de apuração que podem desenvolver. Você pode ser bom em buscar entrevistas, mas você cobre eventos? Ou vice-versa. Afinal, você consegue combinar múltiplos tipos de apurações para investigar algo?

Obviamente, a realidade é mais complexa que isso, e a hierarquia de valor não é tão fixa: há notícias com base em curadoria maravilhosas, criativas e convincentes, investigações preguiçosas e chatas. Mas esse não é o objetivo aqui. Se isso foi útil para você, entre em contato – e se você tem alguma coisa a acrescentar, ou objeções a levantar, por favor, comente ou me envie um tweet: @paulbradshaw.

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